Markup e margem de lucro: a diferença que quase toda oficina erra
Somar 80% ao custo na calculadora não te dá 80% de margem. Entenda o que é markup, o que é margem, e por que "100% de lucro" não existe.
Keven Madalozzo·08 de agosto de 2026·5 min de leitura
Pergunte a um dono de oficina com que margem de lucro ele trabalha. Muita gente responde "90%". Aí você pergunta como ele chega nesse número, e a conta é sempre a mesma: pega o custo da peça na calculadora e soma 90%.
Essa conta não dá 90% de margem. Nem perto.
Markup e margem de lucro são dois indicadores diferentes, e trocar um pelo outro faz a oficina achar que ganha o dobro do que ganha. É o erro mais comum que eu vejo na precificação de peças.
Markup é multiplicador do custo
Markup é simples: é quantas vezes você multiplica o custo para chegar no preço de venda.
Peça que custa R$ 100 e é vendida a R$ 200:
R$ 100 × 2 = R$ 200 → markup de 2,0
Só isso. Se você vende a mesma peça por R$ 180, seu markup é 1,8. Por R$ 190, é 1,9. É um multiplicador, e trabalhar assim não tem problema nenhum — desde que você saiba o que ele significa.
Margem de lucro é outra coisa
Margem olha para o outro lado da conta: quanto sobra, medido sobre a venda.
Peguemos a mesma peça, vendida a R$ 200:
| Venda | R$ 200 |
| CMV (custo da mercadoria vendida) | − R$ 100 |
| Sobra | R$ 100 |
Sobraram R$ 100 de uma venda de R$ 200. Isso é uma margem de 50% — não de 100%.
E aqui está o ponto que trava muita gente: não existe 100% de lucro. Jamais. Se sobrassem 100% da venda, significaria que a peça não te custou nada. Como a margem é sempre calculada sobre o preço de venda, e o custo sempre sai de dentro dele, o número nunca chega a 100%.
O erro dos 80% na calculadora
Agora dá para ver o erro com clareza. Você pega a peça de R$ 100, soma 80% na calculadora e chega em R$ 180. Vende por esse valor achando que tem 80% de margem.
O que você tem de verdade:
| Venda | R$ 180 |
| CMV | − R$ 100 |
| Sobra | R$ 80 |
| Margem real | 44,4% |
Você tem um markup de 1,8 e uma margem de 44,4%. Achava que eram 80%.
Trabalhando com markup 1,8 ou 1,9, a sua margem fica entre 40% e 50% — não entre 80% e 90%. É quase metade do que você imaginava.
A tabela que resolve isso de vez
Para converter um no outro, a conta é margem = (markup − 1) ÷ markup:
| Markup | Margem bruta real |
|---|---|
| 1,4 | 28,6% |
| 1,5 | 33,3% |
| 1,8 | 44,4% |
| 1,9 | 47,4% |
| 2,0 | 50,0% |
| 2,2 | 54,5% |
| 2,5 | 60,0% |
| 3,0 | 66,7% |
Repare na linha do meio: para ter 50% de margem, você precisa de markup 2,0 — aquele que na calculadora "parece" ser 100% de lucro. É essa distância entre o que parece e o que é que faz a oficina errar o preço.
Bruta e líquida: ainda não acabou
Tudo o que está acima é margem bruta — venda menos o custo da peça.
Dela ainda saem o imposto, o aluguel, a energia, a folha, a taxa da maquininha. O que resta depois disso é a margem líquida, e é ela que de fato vira dinheiro seu no fim do mês.
Por isso markup 1,4 costuma ser perigoso: 28,6% de margem bruta pode virar quase nada de líquida, dependendo da estrutura que a sua oficina carrega.
Markup alvo, e por que ele varia por item
Toda oficina precisa ter um markup alvo — 1,8, 1,9, 2,0, o número que fizer sentido para a sua operação. Mas ele não se aplica igual a todos os itens.
Amortecedor é o exemplo clássico. O mercado é competitivo, o cliente pesquisa o preço no celular ali mesmo no balcão. Não adianta querer markup 2,5 — você vai ter que trabalhar com 1,4 ou 1,5.
A saída não é aceitar margem baixa em tudo. É compensar: itens de menor valor, ou que o cliente não compara, aguentam markup 2, às vezes 3. Na média, isso puxa a ordem de serviço de volta para o seu alvo.
O que precisa bater com o alvo não é cada peça isolada — é o conjunto.
Como ver isso na ordem de serviço
Fazer essa média item a item, na mão, em toda O.S, é inviável. Foi por isso que essa conta entrou na aba Gestão do Oficina Flow.
Abrindo uma O.S com mão de obra, óleo de transmissão e filtros, a aba mostra o valor total, a lucratividade e o markup — e, item por item, o custo, o valor de venda, o desconto e o markup individual:
- óleo Petronas — custo R$ 39, venda R$ 87 → markup 2,23
- filtros → markup 1,96 e 1,94
E no topo, o markup médio da O.S inteira: 2,15, com lucratividade de 62%.
Esse número do topo é o que importa. Ele responde a pergunta que a peça isolada não responde: no conjunto, esse serviço saiu dentro do meu alvo ou fora?
Repare que a lucratividade (62%) é maior do que a tabela sugeriria para um markup de 2,15. É esperado: a O.S tem mão de obra, e mão de obra não tem custo de aquisição como uma peça tem — ela puxa a lucratividade para cima. São duas perguntas diferentes, e por isso os dois números aparecem lado a lado.
O resumo
- Markup multiplica o custo. Margem é o que sobra do preço.
- Somar percentual na calculadora dá o markup, nunca a margem.
margem = (markup − 1) ÷ markup- Markup 2,0 = margem de 50%. 100% de lucro não existe.
- Tenha um markup alvo, aceite que ele varia por item, e cobre o alvo na média.
- Depois da margem bruta ainda vêm imposto e despesa — a líquida é sempre menor.
E se você já respondeu "trabalho com 90% de lucro" para alguém, agora já sabe o que dizer da próxima vez.
Peça é metade da conta. A outra é a mão de obra, que não tem custo de aquisição e por isso se calcula de outro jeito — está em como calcular o preço da hora de mão de obra.
Keven Madalozzo
Grupo Madalozzo — Tecnologia e Informação Automotiva
